Caminho das Índias, parte VI

Saindo de Goa, voei pra Trivandrum, pra encontrar a Heather. Yey!

Trivandrum mesmo não tem muita coisa. Passeamos um pouco, vimos uns templos bonitos, mas nada demais. A felicidade era por finalmente encontrar a Heather, depois de dois anos e algumas tentativas frustradas!

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Daí, pegamos um taxi e fomos pra Varkala. O tempo estava ruim, mas o lugar é lindo!

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Parece que as monções chegaram mais cedo esse ano… porque as tempestades tropicais que pegamos em Varkala foram deliciosas! Nadar no mar embaixo de tempestade, há quanto tempo eu não fazia isso? E a Heather nunca tinha feito. Às vezes eu tenho uma pena das pessoas que não sabem o que é tempestade tropical – não sabem o que é preferir largar o guarda-chuva e correr porque a água vem de tantos lados que não adianta nada ter um guarda-chuva.

O povoado perto de onde estávamos também estava com as lojas e restaurantes fechados e com pouquíssima gente, mas ainda assim deu pra passear um pouco…

Até eu começar a passar mal e Varkala acabar pra mim.

No final das contas, descobri que não foram os cocos, as comidas de rua, as frutas, os sorvetes, os pratos super apimentados… foi uma porcaria de sopa de galinha com tomate, sem tempero nenhum, com uma galinha passada, que me tombou. The giant had fallen. Que besta, eu, de não lembrar que justamente os temperos é que conservam a comida =/

É por isso que eu quase não tenho fotos de Varkala, porque voltei pro quarto e passei quase dois dias de cama.

Gente, o que foi isso? Eu me orgulho de ter estômago de avestruz, de comer de tudo, de não me abalar com podrões pós-balada, comida de rua, comida que caiu no chão desde que a gente cate rápido. E sigo aquela máxima da Lud que prazo de validade é só uma sugestão. Eu nunca tinha passado mal de verdade.

Foram dois dias de eu achar que ia morrer. Sem brincadeira. Tudo doía como se eu tivesse sido atropelada por um caminhão, de tanta força que meu corpo fazia pra botar pra fora o que já não estava lá dentro. Eu segui todas as dicas do Dr. Felipe (de uma outra viagem, com outra pessoa adoentada) e mesmo assim nem água parava no estômago. Achei uns cream crackers no fundo da bolsa e mesmo assim, nada.

O pessoal do hotel foi ótimo, e perguntavam sempre se eu tinha melhorado, e me deram um chá de limão com gemgibre delicioso, que segundo eles ajuda. E a Heather também foi ótima, me trazendo água e bananas e chá mas sem dar muita atenção pro meu sofrimento.

Acabou que foi jóia que Varkala não tinha lá muita coisa… e foi bom também que eu estava lendo Little Women e muito longe da Índia. Mas olha, agora entendo e respeito mais as pessoas que passam mal em viagem =/

(atenção para o pacote de cream cracker em cima da mesa)

2014-05-03 14.04.24

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Uma coisa que vimos bastante… o uso do Papai Noel em contextos totalmente nada a ver. Os indianos não celebram o Natal e nem sabem quem é o bom velhinho. Bem engraçado encontrá-lo em nomes de lojas, propagandas de venda de carro, lanchonetes… e num hotel de praia.

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A maior cidadezinha do mundo

Pausa pra comentar de mais um causo fantástico dessa pequena grande cidade, Belorizontem.

Pra todo lugar que eu vou, eu encontro conhecidos. Não sei se é porque eu conheço muita gente, porque o mundo é um lugar pequeno, ou porque Belo Horizonte é o maior ovo do mundo.

Na época que eu morava nos Eua, pegava uma conexão em Miami pra voltar pra casa. Eu ficava lá umas 4 horas, por causa do horário dos vôos. Não aconteceu nenhuma vez de eu não encontrar conhecidos.

Outro dia fui numa balada em Berlim e, final de noite, todo mundo bêbado, puxei conversa com uma menina. Falei que era do Brasil, ela perguntou ‘da onde’, eu falei ‘Belo Horizonte’, e ela disse tinha acabado de conhecer (e pegar) um cara de lá. Eu duvidei, ela mostrou o whatsapp, e era um calouro meu. Até mandei mensagem em português pro cara.

Outro dia, festinha do CS, o John tinha um couchsurfer brasileiro em casa. Encontrei o Pedro e dissemos pras pessoas em volta que não demoraria mais de 5 minutos pra encontrarmos uma pessoa que ambos conhecessem. Devíamos ter marcado o tempo, porque rapidíssimo descobrimos que o Pedro tinha estudado física com a Flavinha, na UFMG. Foto pra prima :D

Ontem a Mel, alemã que que eu conheci outro dia, postou no facebook que estava vendo jogo comigo. Um moço, Wallyson, comentou ‘que coisa, ela é da mesma cidade que eu!’. Fui ver, e batata: é o marido da Nanda, irmã da Aninha, das épocas do GJ.

Mundo pequeno!!!

Feliz dia internacional das mulheres!

(atrasado, mas antes tarde que mais tarde)

Esse ano nao precisei me irritar com um presente rosa da empresa, mas em compensacao me irritei bastante no facebook. Gente, anotem ai no seus caderninhos: dia de minoria* nao ‘e dia pra voce parabenizar essa minoria usando os estereotipos mais superficiais que voce conseguir encontrar. Nao. Errado. Nao ‘e assim que faz.

Dia de minoria serve pra gente pensar sobre a situacao dessa minoria, celebrar o que ja’ conseguimos, e criar coragem pra o que ainda falta conquistar.

Anotado?

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Eu tenho um monte de amigos engenheiros, certo? Gente que gosta de estudar, de aprender coisas novas. Gente que entende a importancia da pesquisa e do conhecimento. Gente que normalmente sabe usar o Google.

Dai um desses mocos me faz o favor de postar uma mensagem rosa, com flores e uma mulher sexy, dizendo ‘esse dia ‘e apenas pra lembrar o quanto temos que agradecer a voces todos os dias pelos carinhos, cuidados e alegrias que proporcionam a cada um de nos!’.

Tudo bem se voce escolheu ser machista e babaca justamente no dia internacional das mulheres. Todo mundo tem o direito de ser babaca. Agora, nao va’ me dizer que voce tambem escolheu ser ignorante. Porque esse dia nao ‘e apenas pra te lembrar de nada. Esse dia nao ‘e seu, cara palida. ‘E muita falta de nocao querer se apropriar de um dia que nao ‘e seu, e deturpar seu significado na cara-de-pau.

E nao precisava nem eu lhe dizer isso, era so’ olhar no Google.

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Muitas vezes as pessoas me criticam por eu nao ter jeitinho. Nao falar delicadamente que voce pode, quem sabe, talvez, estar sendo machista. Por eu puxar discussoes com os amigos em qualquer oportunidade, por eu nao deixar passar. Outro dia alguem disse que eu sou ‘intolerante com os intolerantes’ (foi uma critica, mas depois fiquei achando com tanta cara de elogio :). Tive ate’ amigo que parou de falar comigo.

E eu fico pensando se eu nao sou uma chata de galocha politicamente correta. Pensando se eu devia ficar quietinha.

Mas sabe? Nesse dia das mulheres eu ouvi elogios de pessoas que eu gosto e admiro. E eu quero continuar gritando, sim.

* foda chamar a gente de minoria, mas se for considerar cargos politicos e de comando, somos sim bem menos da metade =/

Sobre maturidade

Eu nunca gostei desse conceito, maturidade. Primeiro por ser um conceito muito vago; segundo porque me parece que você só pode julgar a maturidade de uma pessoa se for mais madura que ela. Eu posso ser pequena e achar que você é alta, mas não posso achar que você é imatura sem me achar, eu mesma, mais madura que você.

Terceiro porque esse conceito soa, pra mim, como unidimensional. Do tipo, eu tenho maturidade 35, e você, 37. Mas as escolhas e experiências são tão variadas e diferentes, como faz pra definir que as minhas valeram 35 e as suas, 37?

Dando um exemplo mais concreto: eu decidi morar fora sozinha, num lugar frio com gente aborrecida. Nossa, que bonito, o Fulano nunca saiu do país. Em compensação, o Fulano é casado e tem dois filhos – caramba, que bonito, eu nunca tive filhos. Como faz pra dizer quem é mais maduro, sendo que tivemos experiências totalmente diferentes?

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Outro dia estava batendo papo no bar sobre isso – naquela época na qual eu ia no bar, em vez de ficar enfurnada em casa tomando anti-histamínico. Um menino me disse que, pra ele, maturidade é quão bem você consegue lidar com as situações da vida, sem surtar. Se hoje, por exemplo, tanto eu quanto Fulano perdêssemos o emprego, ou tivéssemos catapora, ou ganhássemos na mega-sena, como lidaríamos com essa experiência?

Achei legal a definição, porque acho sim que quanto mais a gente vive e aprende, mais preparados estamos pras coisas que nos acontecem. Ou pelo menos deveríamos estar :D

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Eu gosto de me expor a diferentes experiências e conhecer coisas novas e todo esse blá-blá-blá que todo mundo diz que gosta também. Mas às vezes fico achando que isso é uma grande perda de tempo.

Pois vejamos: dentre as várias coisas que eu sei fazer, incluo desenterrar carros da neve. Eu já desatolei o meu carro e os carros do zoto várias vezes. Se algum dia eu precisar fazer isso, provavelmente vou estar preparada pra fazê-lo sem muito stress, desde que me emprestem uma pá.

Mas qual vai ser a chance de eu precisar disso, quando voltar a morar no Brasil? (aliás até aqui, que não nevou ainda esse ano, ieieiieie!) Se eu ficar quietinha no Brasil, a chance de eu precisar ou poder usar essa minha grande habilidade dirigibilística é zero. Adiantou o quê eu ter me frustrado, ficado com medo, feito força, me sujado, atrasado pra compromissos, passado frio, pra aprender essa habilidade? Só escrever um post mimimi a respeito.

Sobre o Kaique

Ontem, acharam o corpo de um adolescente morto em SP.

Ele tinha dezesseis anos e foi encontrado sem os dentes. A família acredita que tenha sido porque o rapaz é homossexual.

Que foi crime de ódio, não há dúvida. O que é que um rapaz de 16 anos pode ter feito, pra incitar tanto ódio?

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“O boletim de ocorrência notificou a morte como suicídio”. Até quando vamos ignorar o motivo da violência e fingir que não temos nada com isso? Se foi suicídio, então eu posso continuar contando piada de gay e achando engraçado?

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Aqui na Alemanha eu não acompanho muito as notícias, mas não lembro de ter visto nada nem parecido.

O que tem parecido é que aqui também tem gente de cabeça fechada que acha que ensinar sobre diversidade sexual nas escolas é fazer propaganda homossexual. Porque é claro que orientação sexual, a gente escolhe a que está mais na moda. Curioso que, apesar de toda a propaganda hetero nos filmes, nas novelas, nos livros, na rua, ainda assim tenha gente que não se convença, hein?

Faz um tempo que eu quero escrever sobre privilegios. Tenho a impressao de que nada que eu escreva vai ser tao bom quanto varios textos que eu ja’ li por ai, mas como eu quero falar mais sobre esses topicos, vai ser um exercicio valido mesmo que marromenos ;).

Eu passei muito tempo acreditando nessa historia de meritocracia. ‘E bom pro ego acreditar nisso. Afinal de contas, se eu passei num vestibular concorrido, se eu consegui um emprego bacana, se eu moro na Europa, ‘e merito meu, certo? Eu que consegui, por esforco proprio!

Mas muito mais que merito, eu tive (e tenho) privilegios. Merito quem teve foram meus pais, que me deram tantos privilegios – e eles tambem tiveram seus proprios privilegios, mas nao me cabe falar disso.

Eu tive o privilegio de estudar em colegios bons (e caros) a vida toda. De fazer aula de danca, natacao, artes, ingles, frances, alemao, cursinho, o escambau. De ter enciclopedias enormes em casa (duas: a Barsa e a Exitus). De ter tido um laboratorio de fisica e, anos mais tarde, de quimica. De ter muitos livros em casa. De ter acesso a computador, internet, televisao a cabo. E ‘e so’ merito meu ter passado no vestibular?

Eu tive o privilegio de ouvir linguas estrangeiras desde cedo em casa; de ver pessoas viajando para o exterior. Tive o privilegio de ter minha primeira viagem ao exterior totalmente bancada pelos meus pais, e pude contar com um emprestimo pra fazer minha segunda. Tive o enorme privilegio de ganhar totalmente de graca e sem esforco (da minha parte, claro – porque foi um parto pra minha irma e pro meu pai) minha cidadania europeia. E ai ‘e so’ merito meu morar na Europa?

Nao estou dizendo que, mesmo que eu fosse uma ameba, seria tudo igual. Estou dizendo que varios outros fatores, alem do meu proprio esforco, empenho, merito, foram e sao determinantes na minha vida – e na vida dos outros tambem.

E’ por isso que precisamos de acoes afirmativas. Porque nao ‘e todo mundo que sai do mesmo ponto, nao ‘e todo mundo que tem os mesmos privilegios.

Eu passei a vida toda rodeada de gente com mais ou menos o mesmo berco de ouro, entao demorei a notar. Foi so’ quando eu trabalhei como professora num pre-vestibular pra alunos da rede publica ‘e que eu entendi o tamanho do problema.

Aqueles meninos e meninas nao tinham internet em casa, muito menos enciclopedia. Se eles nao entendessem uma questao do dever de casa, nao tinham mae pos-graduada em casa pra ajudar a resolver. Imagino que muitos deles nao tivessem nem mesmo um lugar apropriado pra estudar – mesa, cadeira, luz.

Muitos deles (senao todos) trabalhavam durante o dia, e iam ‘as aulas de noite. Quando sobrava tempo pra estudar? Imagino que nunca, porque os exercicios que eu preparava pra casa ficavam sempre em branco. Pra mim, passar no vestibular, fazer faculdade, sempre foi uma coisa que obviamente aconteceria. Quantos desses jovens tinham pais nem acreditavam que eles seriam capazes de passar no vestibular?

Agora imagine voce que uma dessas meninas que estudou comigo seja cinco vezes mais inteligente que eu. Cinco vezes mais esforcada. Durma 50% menos pra dar conta de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Voce acha que ela conseguiria as mesmas coisas?

E mesmo que, sendo assim uma super-heroina, ela tenha passado no vestibular e conseguido um emprego fenomenal e ido morar onde quisesse – ‘e justo que pra isso ela tenha que ter sido uma super-heroina, e que eu pudesse ficar assistindo sessao da tarde e tomando danoninho e conseguir os mesmos resultados?

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O melhor argumento que eu conheco contra acoes afirmativas (e especialmente contra as cotas) ‘e que o ideal seria investir em educacao publica de qualidade, por exemplo. Eu concordo que isso ‘e necessario e urgente. Mas faz sentido esperar isso sem fazer nada ja’?

Imaginemos que, de repente, ano-novo-vida-nova, tivessemos magicamente um ensino basico de qualidade. Quantos anos ia demorar pra, a partir de agora, se formarem as primeiras pessoas que dependessem desse sistema? E quantos anos vai demorar pra termos esse sistema?

Vai ser otimo quando isso for realidade (porque eu acredito que chegaremos la’). Mas como a gente faz pra dar agora, ja’, de uma vez, oportunidades pra quem teve menos privilegios? Se souberem de um jeito que nao passe por acoes afirmativas, me avisem.

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Eu adoro a ideia desse desenho, apesar de nao curtir muito o desenho em si.

 

This territory goes uncharted

Abram alas pras retrospectivas 2013 e pras resoluções de ano novo!

Eu sempre gostei mais de ano ímpar e esse foi um ano fenomenal. Eu me mudei pra Europa! Eu já tinha vindo em 2012, mas a parte de achar uma casa, comprar móveis, montar os móveis e efetivamente ter um endereço meu foi só esse ano. Morar sozinha não foi novidade, mas todo o resto sim – inclusive pagar todas as minhas contas – e até ter que fazer conta pra ver que aluguel ia caber no orçamento. Montar casa sozinha foi triste, especialmente ir na Ikea e ver todos os casais apaixonados e famílias com filhinhos fofos comprando móveis juntos. Mas montar os móveis em si foi ótimo e acho que aprendi muito! Morar na Europa era um sonho antigo… morar na Alemanha era um sonho recente. Ambos realizados!

Outro sonho antigo realizado foi ver a aurora boreal. Ainda vou escrever um post a respeito com fotos e tals. Foi lindo, foi emocionante, e foi um sonho realizado. Outro sonho, extensivamente descrito aqui no blogue, foi ir pra Grécia. Lindo, emocionate, e cheio de luxo e sedução! :D

Na lista de eventos que eu sempre quis ir, mas não eram exatamente sonhos, teve a festa de St Patrick’s em Dublin, ano novo em Londres, e o maior festival de música da Alemanha. Também teve vários shows legais e viagens bacanas.

Outra coisa importante e ao mesmo tempo inevitável foi comemorar 30 anos. A festa foi fenomenal e do jeitinho que eu queria (post com fotos pendente!), e estou muito feliz de estar tão velha quanto eu jamais fui. Não tenho dúvidas que dos 30 aos 40 vão ser os melhores anos da minha vida (e depois dos 40 ao 50, e dos 50 ao 60… : ).

Nesse ano, fiz um bom trabalho com os meus relacionamentos à distância. Ainda não está perfeito; ainda quero ter mais contato com um monte de gente; ainda quero melhorar nos que estão indo bem. Mas acho que estou entendendo melhor o que funciona e o que não, e estou mais ou menos confiante de que minha estada aqui não vai me fazer perder ninguém. Meu aniversário foi uma boa prévia :)

Aprendi mais sobre mim mesma bla bla blá auto conhecimento bla bla blá sou uma pessoa melhor bla bla blá. Nisso não tem como andar pra trás, né? Ainda falta muito, mas estou cada vez mais perto da pessoa que eu quero ser. E estou feliz por ter sido muito corajosa esse ano, vocês nem imaginam (ou alguns sabem, hehe).

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Pro ano que vem?

Todas aquelas coisas de sempre.

A única novidade é que eu quero fazer mais pela causa, ou pelas causas. Quero escrever mais sobre isso. Quero aprender a argumentar melhor. Quero carregar as bandeiras nas quais eu acredito, literalmente quando der.

Outro dia li um texto lindo (que não tou achando pra linkar que está aqui) falando sobre a declaração da Fernanda Lima sobre ter sido apresentadora da Copa. O texto é longo mas é levinho e eu recomendo mil vezes. Vai lá e depois volta.

Então.

“Ao fazer tudo direitinho, sem mover um dedo para infligir qualquer mal a quem quer que seja, nós brancos somos beneficiários silenciosos de um sistema opressor que nos precede e, apesar de que não o queiramos, nos define. (…) O problema é que “fazer tudo direitinho”, no nosso mundo, é exatamente o que o mundo exige para o mundo permanecer exatamente do jeito que está.”

O texto é sobre racismo, mas poderia ser sobre machismo ou homofobia. Ou classismo. Ou qualquer outra biltrice que esteja aí firme e forte no mundo. Não sei ainda o que eu quero fazer, mas sei que quero fazer alguma coisa. Quero deixar um mundo mais bacana pros filhos do zoto : )

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Fora isso, como diz a Sara…

Compare
Where you are and where you wanna be and you’ll get
Nowhere

Feliz ano novo!

When I get older, losing my hair,

will you still be sending me valentines, birthday greetings, bottles of wine?

Quando eu era criança, tudo que eu queria era ficar mais velha. É que eu tenho duas irmãs mais velhas e sempre quis fazer coisas que a minha idade não deixava – de ler os livros das séries acima na biblioteca do colégio a ir num lugar chamado Fantasma da Ópera (era isso?) – que era a boate da época – antes de fazer dez anos. E claro que eu não podia.

Também convivi bastante com os primos mais velhos. Eu lembro direitinho da minha prima Paulinha ganhar um cachorrinho de presente de aniversário dos amigos da turma, quando tinha 14 anos. Tudo que eu queria era fazer 14 anos e ganhar um presente legal daqueles (ou menos – ter amigos na turma já seria um avanço).

Sempre comemorei meus aniversários muito contente – com a sensação de poder MAIS, não menos. Mais velha, mais experiências, mais dinheiro, mais liberdade, mais casos pra contar. E quando comecei a trabalhar, também comecei a querer *parecer* mais velha – pras pessoas pararem de duvidar da minha competência por causa da carinha de criança. Favor duvidar da minha competência por motivos reais como vocês fazem hoje, obrigada!

Dito tudo isso, são os trinta chegando. E por mais que minhas irmãs e primos e primas também tenham passado (e ultrapassado!) essa idade sem danos imediatos aparentes, estou sentindo a pressão. Das pessoas que não dizem a idade; que perguntam como é que eu estou feliz com a idade; que dizem que os melhores anos de uma mulher são entre os 20 e os 30; que agora é só morro abaixo.

Eu tive uma infância solitária, e uma pré-adolescência triste; só comecei a achar que a vida é assim uma coisa ótima aos 15. Fazendo as contas, quando eu passar dos 30, quer dizer que mais tempo da minha vida foi feliz do que foi triste! Se isso não é pra comemorar, não sei o que é.

E se agora é morro abaixo, eu fico muito contente, porque subir morro cansa. E descer é uma delícia!

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