…and let the words fall out

No dia 29 é o dia da visibilidade trans e meu objetivo era já ter começado a semana ontem – mas antes tarde que mais tarde!

Como também estou lendo um capítulo do Dan Ariely sobre como a gente tende a se compadecer quando a história é pessoal, e como somos mais frios e racionais ao lidar com estatísticas, vou começar com um vídeo lindo da <3 Laverne Cox <3.

Pra quem não entende inglês, segue minha tradução muito livre:

“Houve um momento, há uns 10 anos atrás, que eu estava andando até o metrô, em Upper West Side. Era 4 de julho, e eu estava usando um vestido vermelho, azul e branco – tão patriótico – e eu passei por esses dois caras, um parecia latino e outro parecia negro. O cara latino disse (ela faz umas vozes ótimas), yo, mama, posso te passar uma cantada? E o cara negro disse,’opa, cara, ela é um t…’. E aí o cara latino disse, ‘não, cara, é uma vadia’. E o cara negro disse, ‘não, é um t…’, e aí eles começaram a discutir. Eles começaram a discutir se eu era um t… ou uma v…. (ai ela faz uma carinha de ‘isso não é ótimo!’ e balança a cabeça pros lados) Que opções adoráveis. E eu estava lá só esperando o sinal mudar de cor, pensando ‘por favor, abre, sinal, deixa eu atravessar’ porque eu só precisava atravessar a rua. E finalmente o cara latino virou pra mim e disse, ‘você não é um t…, é?’.

Esse momento é indicativo de um moooonte de assédio de rua que eu já tive que sofrer. E esse assédio começou primeiro porque esses caras me acharam atraente, porque eu sou uma mulher, e aí eles perceberam que eu sou trans, e aí virou outra coisa. Se transformou em outra coisa. Tantas mulheres trans têm que passar por isso. Mês passado em Nova Iorque uma jovem chamada Islan Nettles estava andando na rua, em Harlem, com um amigo, e foi cantada por uns caras, e eles perceberam que ela era trans. E aí bateram nela. Até a morte.

Em 2011 uma mulher trans chamada Amanda Milan, que eu conhecia mas não muito bem, uma coisa similar aconteceu com ela perto de Times Square. E ela foi apunhalada até a morte. É frequente (aí ela respira pra não chorar) – nossas vidas estão frequentemente em perigo. Simplesmente por sermos quem somos. Porque somos mulheres trans.

Tem muitas identidades e muitas opressões que se cruzam, e que fazem isso acontecer. Aquele momento em que eu fui chamada ou de v…, ou de t…, foi um momento no qual misoginia se cruzou com transfobia, e com um bocado de racismo. O pedaço racial na verdade é bem importante, porque eu converso com um monte de mulheres trans brancas que não sofreram tanto assédio de rua quanto eu sofri – e eu já arranjei problemas por dizer isso em público: por dizer que muito do assédio que eu sofri veio de caras negros, e não é pra sugerir que os caras negros sejam mais homofóbicos ou transfóbicos do que os outros, porque eu não acredito nisso. Mas existem alguns caras negros homofóbicos ou transfóbicos. E eu acho que a razão pra isso é que existe um trauma coletivo com o qual um monte de caras negros têm que lidar nesse país. Isso vem da época da escravidão, da época de Jim Crow. Muitos de nós sabemos que durante essa época, muitos corpos negros, usualmente corpos negros masculinos, eram linchados. Nesses linchamentos, às vezes os genitais dos homens eram cortados fora e vendidos. Então existe um certo medo e uma certa facinação com a sexualidade de um homem negro. Eu acredito que muitos caras negros sentem que houve essa emasculação histórica dentro da supremacia branca. E acho que muitos caras negros, lidando com stress pós-traumático, vêem um corpo trans, o *meu* corpo feminino trans, e sentem que eu sou a personificação dessa emasculação. Então, frequentemente, quando gritam pra mim na rua, é como se eu fosse uma desgraça para a raça, porque eu sou trans. E eu entendo isso como sendo trauma.

Eu tenho amor – eu tenho tanto amor para os meus irmãos e irmãs negros que mexem comigo na rua, porque eu captei, eu entendo. Eles sentem dor. E eu sinto tão frequentemente que nossos opressores estão sentindo tanta, tanta dor. Eu acho que sempre que alguém precisa expor uma pessoa pelo que ela realmente é, e fazer troça dela, é porque esse alguém não está confortável com quem ele é. Então, se você já se incomodou com outra pessoa, eu peço pra que vocês olhem dentro de vocês primeiro: o que é essa coisa dentro de você mesmo que lhe incomoda? O que é essa coisa dentro de você mesmo que lhe incomoda?…

Eu acho que é importante, quando a gente fala sobre bullying, entender que quando crianças LGBTQI sofrem bullying, é por causa de como eles expressam o seu gênero. Nós ouvimos as censuras anti-gay – é de fato sobre essas crianças não se adaptarem ao sexo que eles receberam ao nascer. Sobre sua expressão (de gênero) não estar atendendo às expectativas da sociedade. Nós temos que começar a criar espaços onde nós possamos expressar nosso gênero de maneiras que são verdadeiras pra nós mesmos. Nesse sistema binário de gênero, a maioria de nós não cabe. E está tudo bem. Eu acho que a violência que tantas mulheres trans encontram – e as mulheres trans negras são vítimas desproporcionais dessa violência – nossa taxa de mortes por homicídio é a maior entre todos os grupos GLBT – e foi de 43% em 2011 para quase 54%! 54% de todos os homicídios GLBT são de mulheres trans, e a maioria mulheres trans negras. Existe uma ligação entre o bullying que fazemos com as crianças LGBTQI e a violência que tantas mulheres trans encontram. O que nós vamos fazer a esse respeito?

Eu acho que amor é a resposta… Cornel West nos lembra que justiça é como o amor se parece em público. E eu adoro essa frase, porque eu sinto que, se pudermos amar as pessoas transgêneras, isso vai ser um ato revolucionário.”

***

Eu pensei em só resumir as coisas que ela fala mas achei que eu tinha grande chance de falar m*rda e preferi arriscar a tradução. Não sei como resumir sem diminuir uma experiência que não é minha, que é tão diferente da minha.

***

Concordo especialmente com dois pontos do que ela fala.

O primeiro é que as pessoas preconceituosas e violentas têm muito ódio no coraçãozinho. Quem tá feliz e tranquilo vai viver sua vida em vez de destilar ódio por aí. Inclusive eu mesma – quando eu tou feliz, eu me importo só com a minha vida. Basta eu estar triste / chateada / irritada / brava que fico aí de mimimi, comparando minha vida com a dos outros, atazando os outros. Eu acho que discordar e discutir é sempre ótimo, mas quando eu sou agressiva e escrota eu estou dizendo muito mais sobre mim mesma do que sobre o que ou quem eu estou agredindo…

O segundo ponto é: expectativas da sociedade em relação a gêneros. Genteee!, agora que já sabemos que mulher pode usar calça e homem pode chorar, não tá na hora de largar a mão do resto dos estereótipos e ser feliz? Tipo, sério mesmo?

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