Faz um tempo que eu quero escrever sobre privilegios. Tenho a impressao de que nada que eu escreva vai ser tao bom quanto varios textos que eu ja’ li por ai, mas como eu quero falar mais sobre esses topicos, vai ser um exercicio valido mesmo que marromenos ;).

Eu passei muito tempo acreditando nessa historia de meritocracia. ‘E bom pro ego acreditar nisso. Afinal de contas, se eu passei num vestibular concorrido, se eu consegui um emprego bacana, se eu moro na Europa, ‘e merito meu, certo? Eu que consegui, por esforco proprio!

Mas muito mais que merito, eu tive (e tenho) privilegios. Merito quem teve foram meus pais, que me deram tantos privilegios – e eles tambem tiveram seus proprios privilegios, mas nao me cabe falar disso.

Eu tive o privilegio de estudar em colegios bons (e caros) a vida toda. De fazer aula de danca, natacao, artes, ingles, frances, alemao, cursinho, o escambau. De ter enciclopedias enormes em casa (duas: a Barsa e a Exitus). De ter tido um laboratorio de fisica e, anos mais tarde, de quimica. De ter muitos livros em casa. De ter acesso a computador, internet, televisao a cabo. E ‘e so’ merito meu ter passado no vestibular?

Eu tive o privilegio de ouvir linguas estrangeiras desde cedo em casa; de ver pessoas viajando para o exterior. Tive o privilegio de ter minha primeira viagem ao exterior totalmente bancada pelos meus pais, e pude contar com um emprestimo pra fazer minha segunda. Tive o enorme privilegio de ganhar totalmente de graca e sem esforco (da minha parte, claro – porque foi um parto pra minha irma e pro meu pai) minha cidadania europeia. E ai ‘e so’ merito meu morar na Europa?

Nao estou dizendo que, mesmo que eu fosse uma ameba, seria tudo igual. Estou dizendo que varios outros fatores, alem do meu proprio esforco, empenho, merito, foram e sao determinantes na minha vida – e na vida dos outros tambem.

E’ por isso que precisamos de acoes afirmativas. Porque nao ‘e todo mundo que sai do mesmo ponto, nao ‘e todo mundo que tem os mesmos privilegios.

Eu passei a vida toda rodeada de gente com mais ou menos o mesmo berco de ouro, entao demorei a notar. Foi so’ quando eu trabalhei como professora num pre-vestibular pra alunos da rede publica ‘e que eu entendi o tamanho do problema.

Aqueles meninos e meninas nao tinham internet em casa, muito menos enciclopedia. Se eles nao entendessem uma questao do dever de casa, nao tinham mae pos-graduada em casa pra ajudar a resolver. Imagino que muitos deles nao tivessem nem mesmo um lugar apropriado pra estudar – mesa, cadeira, luz.

Muitos deles (senao todos) trabalhavam durante o dia, e iam ‘as aulas de noite. Quando sobrava tempo pra estudar? Imagino que nunca, porque os exercicios que eu preparava pra casa ficavam sempre em branco. Pra mim, passar no vestibular, fazer faculdade, sempre foi uma coisa que obviamente aconteceria. Quantos desses jovens tinham pais nem acreditavam que eles seriam capazes de passar no vestibular?

Agora imagine voce que uma dessas meninas que estudou comigo seja cinco vezes mais inteligente que eu. Cinco vezes mais esforcada. Durma 50% menos pra dar conta de trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Voce acha que ela conseguiria as mesmas coisas?

E mesmo que, sendo assim uma super-heroina, ela tenha passado no vestibular e conseguido um emprego fenomenal e ido morar onde quisesse – ‘e justo que pra isso ela tenha que ter sido uma super-heroina, e que eu pudesse ficar assistindo sessao da tarde e tomando danoninho e conseguir os mesmos resultados?

***

O melhor argumento que eu conheco contra acoes afirmativas (e especialmente contra as cotas) ‘e que o ideal seria investir em educacao publica de qualidade, por exemplo. Eu concordo que isso ‘e necessario e urgente. Mas faz sentido esperar isso sem fazer nada ja’?

Imaginemos que, de repente, ano-novo-vida-nova, tivessemos magicamente um ensino basico de qualidade. Quantos anos ia demorar pra, a partir de agora, se formarem as primeiras pessoas que dependessem desse sistema? E quantos anos vai demorar pra termos esse sistema?

Vai ser otimo quando isso for realidade (porque eu acredito que chegaremos la’). Mas como a gente faz pra dar agora, ja’, de uma vez, oportunidades pra quem teve menos privilegios? Se souberem de um jeito que nao passe por acoes afirmativas, me avisem.

eq

Eu adoro a ideia desse desenho, apesar de nao curtir muito o desenho em si.

 

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6 thoughts on “

  1. Concordo totalmente c vc. No meu trabalho tem estagiários, q tão no segundo grau vira e mexe a gente descobre q algum nao fez o Enem, q hoje é essencial, ai depois descobrimos o porque: a família nao incentiva, nem deve saber a importância. Essas pessoas claramente nao tem, nem vão ter as mesmas chances q vc e eu tivemos. Se qdo fiz vestibular tivesse Enem, minha mae nunca q ia desconhecer o assunto. ( apareci só hoje por aqui pq achei q vc ia demorar p postar em 2014, mas vc começou o ano cheia de posts hein? Gostei! Bjo!

    • acho tao dificil entender que os outros partem de um ponto totalmente diferente… talvez seja interessante fazer uma palestra ai pros stags falando sobre as possibilidades que eles tem? incluindo curso tecnico – um negocio que nunca foi uma possibilidade pra mim, e que so’ depois eu fui descobrir que ‘e o mais legal do mundo…

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